Viaduto
do relógio da igreja vejo que são oito da manhã, mais pra mim são seis, simplesmente é o que me parece, e hoje é o que vai ser. as nuvens no céu professam a chegada de mais chuva e de mais dias acinzentados como hoje, faz 4 anos que não vejo meus filhos. agora os vejo sorrindo, abrindo devagar seus grandes olhos orientais e brindando a vida com um bom dia a meus netos recêm chegados. bem de longe ouço zumbir a musica de seus rádios relógio, eles cantam aquelas velhas canções que o tempo me fez esquecer da melodia, e agora, sentindo um leve cheiro de pão doce vindo da padaria, eu me lembro dos lábios dela pronunciando outro 'eu te amo' aos pés dos meus ouvidos. Um arrepio corre a minha espinha, como daquela vez que a vi dançar com outro rapaz, mais bonito e bem vestido que eu, mais mesmo assim não me fez deixar de te-la. Posso vê-la caminhando comigo agora, meus pés tropeçam um no outro e a musica é abafada por buzinas e palavrões direcionados a mim, eu posso ouvir o que eles estão pensando, ouvir suas cabeças coagindo em uma sinfonia que diz: 'um viaduto não é um bom lugar para um velho caminhar.'
um urubu come a carne de um pequeno animal ali embaixo, e a cada passo eu me sinto em cima, puxando o ar pelas beiradas e sentindo o perigo sussurrar no meu ouvido, finalmente paro.
Donde estou, a cidade me observa, as pessoas me vêem, até o urubu parou de devorar seu café para me observar. menos ela, já ouvi dizeres de que não voltará, tudo bem, eu me conformo. Me conformo em ser o velho abridor de latas que não serve para mais nada agora, que ninguém quer jogar fora, eu me conformo sim. ela sorri pra mim enquanto as pessoas se juntam a multidão para me observar, o rio lá embaixo projeta um retrospecto da minha vida em camera lenta, eu posso sentir o que foi bom, e agora não é nada. desperdício seria continuar assim, parado, esperando que algo aconteça, o fim da linha chegou e eu posso dizer que vivi, então minhas ultimas gotas de dignidade dependem disso.
o urubu agora me fita com interesse. um sorriso atravessa meu rosto, e de olhos fechados, vislumbrando o rosto dela.E lá de cima, eu me atiro.
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um cara se atirou do viaduto hoje, um cara sem nome, um cara sem motivo, um cara.
thamaramorgan.
um urubu come a carne de um pequeno animal ali embaixo, e a cada passo eu me sinto em cima, puxando o ar pelas beiradas e sentindo o perigo sussurrar no meu ouvido, finalmente paro.
Donde estou, a cidade me observa, as pessoas me vêem, até o urubu parou de devorar seu café para me observar. menos ela, já ouvi dizeres de que não voltará, tudo bem, eu me conformo. Me conformo em ser o velho abridor de latas que não serve para mais nada agora, que ninguém quer jogar fora, eu me conformo sim. ela sorri pra mim enquanto as pessoas se juntam a multidão para me observar, o rio lá embaixo projeta um retrospecto da minha vida em camera lenta, eu posso sentir o que foi bom, e agora não é nada. desperdício seria continuar assim, parado, esperando que algo aconteça, o fim da linha chegou e eu posso dizer que vivi, então minhas ultimas gotas de dignidade dependem disso.
o urubu agora me fita com interesse. um sorriso atravessa meu rosto, e de olhos fechados, vislumbrando o rosto dela.E lá de cima, eu me atiro.
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um cara se atirou do viaduto hoje, um cara sem nome, um cara sem motivo, um cara.
thamaramorgan.
Porra, muito foda o texto!
ResponderExcluirEmpresto sim, me lembra que eu levo pra tu :D
;*
Porra, muito foda [2]
ResponderExcluirBeijoos
E no olhar do urubu a beleza mulher que salta pelos viadutos do imaginário em busca da avemnida larga de uma realidade untada de encontros e encontros e encontros e... Mas onde estará esta mulher?
ResponderExcluirCadinho RoCo
cara que massa tá o jeader do seu blog =D
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