Na beira do cais

E lá na beira do cais eu pude ver o meu barquinho de papel partir .. vagarosamente as águas do oceano lamberam seu casco sem que eu percebesse, escurecendo a minha folha perfumada e minuciosamente marcada para formar uma dobradura. Naquela noite eu não dormi, fiquei assistindo as curtos passos do meu brinquedo na água, se distanciando melancolicamente de mim, mediucre que sou, e se aproximando dos primeiros raios de sol daquela alvorada. Penso eu que nunca me foi valido um barco de papel, pois tão frágil que era, eu mesmo dona, tive medo de tocar, estragar e amassar a criatura que agora trepida na água insegura e obstinada, esperando encontrar lá longe uma cura para todas as doenças que eu causei. Doravante tomo pra mim a percepção do dever de fazer com que as coisas realizem o que nasceram para fazer, eu deveria ter previsto e não contido a indomável vontade do ser em si. Tocando a ponta dos dedos na água eu vislumbro a corrida da proa até o horizonte para então encontra-lo, a possibilidade de lágrimas relevantes ao sal do mar, submersas no desejo e realização. Lembro então que no barquinho eu desenhei caprichos, botei meus medos, minhas vontades, e durante a dobradura eu rezei para que ele guardasse para si, e não se desmanchasse durante uma enxurrada qualquer, como eu muitas vezes fiz. O vento sopra pra longe o instante de um sorriso, um abraço, impossibilita o meu bem estar geral pela película incolor que estampa a imagem perfeita, a pura sorte, a essencialidade que eu procurei por toda vida. Eu tiro os pés da água e volto a tocar a areia quente e pouco gentil, eu tento então esboçar algum sentimento, emitir algum som, mas acorde algum embala meu coração, e no silencio eu percebo minha verdade particular. Meu coração procura por teus olhos e vai pulsar aos pés de teu ouvido, mas eu não posso mudar o aqui o agora, nem interromper uma manifestação do tempo, do destino. Agora procuro mentalmente uma folha em branco do caderno escolar, acaricio os dentes do canto do papel dilacerado e começo então uma nova figura, talvez um chapéu ou um pássaro, ou até mesmo um coração, sentado na beira do cais, esperando.

Comentários

  1. Tenho medo de esperar por aquilo que não volta.

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  2. Hahaha adorei a sua visita... e gosto do modo como escreve, é bem profundo. Gosto de escrever sobre sentimentos também ... e pelo que eu sei sobre a vida e os meus 24 anos. É que esperamos muito, pensamos muito a as vezes, o medo faz a gente não correr a traz, não arriscar e perder algo que como a Maria Fernanda disse em cima ... "esperar por aquilo que não vai voltar"

    Bjus foi um prazer... ;*

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