Carpete mofado

parou na porta, observou por alguns instantes o tapete, e decidiu entrar. algumas tentativas antes da chave girar a tranca, abrindo espaço para um universo inerte, vazio como uma folha de papel em branco, esperando para ser escrita, mas sem nenhuma intenção de pedir, de se mover. tirou os sapatos, deixou as meias suarem o pé, caminhou pelo cómodo principal como desconhecida, sem reconhecer o apartamento que um dia fora seu, e que apesar de ainda ter suas coisas, o passado arrancou-lhe das mão como o vento faz com as folhas das árvores no outono. a estação não era esta, mas servia ali dentro, para sempre outono, primavera. verão não, nem o inverno. de frio já bastava o coração, palavras cuspidas e dedos do pé. continuou a mergulhar pelas paredes do local, a luz parecia acesa, mas não estava, tentou o interruptor, a lâmpada funciona, sorriu e soltou um grunhido para si mesma, como quem fala com os mortos, ou com os objetos ali presentes ; " imagina, sobrou luz, ainda podemos ficar não é, ainda podemos .." sem terminar a reflexão voltou ao pesado silencio, deixou a chave cair no chão, ficou ali parada, com a luz do corredor, a porta aperta e um chaveiro com as iniciais do seu nome tocando o carpete mofado, tão esquecido de seus pés que quase voltou a ser imaculado, puro. Quase. deslizou então até a entrada do quarto, mas demorou-se em um porta retrato na parede principal, duas bocas sorrindo, se olhando, pensando. Duas bocas que hoje ela não reconhece mais, a muito não via. tenta recordar qual o motivo da expressão, mas não conseguiu, franziu o cenho e olhando novamente para frente se colocou a caminhar como se conhecendo um imóvel sem dono, procurasse descobrir algum segredo importante, antigo. não olhou para a porta a esquerda, não olhou o quarto, manteve em sua mente a lembrança de como era, de quem era que habitava aquele cómodo, era só o que importava. o vazio não a convenceria, o vazio não convence ninguém. entrou no lavabo, olhou a pia repleta de cinzas de cigarro, cinzas de recordações, cuspidas até. sentou-se na tampa do vazo, e ali ficou por um tempo, olhando o espelho e a luz fraca vinda de fora do basculante iluminando seu rosto sem lágrimas. quando pensou em adormecer ali, como a princesa faz em seu momento de tormenta no conto de fadas, a espera de seu príncipe encantado, é surpreendida pelo toque do telefone celular em seu bolso de traz. como acordando de um sonho começa " oi " bem baixinho, escuta uma longa explicação sobre tempo, pressa e promessas a serem cumpridas e decide " já estou indo. " silencio " pensei em deixar para outra hora. digo, buscar depois " escuta " não tenho pressa. esse lugar, ainda é nosso - pigarreou - meu .. " finaliza " te vejo depois " desliga. alguns segundos de realidade. e num suspiro vindo de bem fundo, lá das estranhas de sua alma, toma força para levantar. caminha de volta a superfície passando a ponta dos dedos na parede, desvia o retrato, resgata a chave, deixa os sapatos. sai de meia mesmo, até porque o carpete mofado merecia alguma recordação sua, que não fosse aquele quarto, aquele suspiro. tranca e se vai. já dentro do elevador, sorriu e soltou um grunhido para si mesma, como quem fala com os mortos, ou com os objetos ali presentes; " imagina, deixei a luz acesa ".

Thamara Morgan _

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