Todo carnaval tem seu fim

saíram os dois, um em cada canto da avenida movimentada e colorida de segunda feira. muito barulho, muita confusão, muita gente sozinha, inclusive eles, desconhecidos um do outro, procurando encontrar-se secretamente. como nos sonhos de criança que sai no quintal de casa com anseios secretos por magia, esperando encontrar fadas, princesas, portais para lugares encantados, essas coisas que fogem da realidade mas que mesmo assim alimentam nossa imaginação. andaram um em cada calçada, olhando fixamente para frente, enfiaram na cabeça que o horizonte é o importante, esqueceram-se de olhar ao redor. tem em mente cigarros, casos antigos e promessas que fizeram no ultimo verão, mas o momento ali presenciado passa como oxigénio nos pulmões, naturalmente transitório, mortalmente esquecido. o bloco passa pelos dois, e os lábios não esboçam sorriso, nem desdém, simplesmente observam os outros, o que é uma terapia melhor do que olhar para si mesmo. uma moça fantasiada de Pierrot recita atrás da multidão uma marchinha antiga, falando dessa mesma história onde Colombina e Arlequim participam, algo que lhes chama a atenção. aproximam-se. não se olham até o instante em que o chapéu da moça tapa seus olhos, e ela mais uma vez o empurra com a ponta dos dedos, soltando um palavrão. é nesse momento que a magia se desfaz, o poeta também xinga, mas ao invés de seguirem seus caminhos, resolvem seguir lado a lado, em silencio, dois desconhecidos.

Thamara

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