trio

ela estava sentada na janela, com um dos pés descalços para fora, pendulando no ar, sem intenção de cair. era o ultimo cigarro, prometeu e pigarreou para si mesma, mentiras sinceras atraiam-na. fitou o cómodo quase vazio, exceto por uma foto tosca de um casal feliz de porta retrato, assistindo tudo, e sendo assistidos num daqueles episódios chamados " passado ". começou : - sabe de uma coisa, é isso mesmo, não é fácil, mas a culpa não é toda minha. tudo que podia ser simples você complicou, amaldiçoou e ironizou, nada funciona assim. eu sei como anda minha cabeça, sei como andava a sua, sei das mentiras, sei que tudo se encaixava num quebra cabeça que antes eu não entendia, mas agora sim. - apontou o dedo com cigarro para o nada e narrou - nem sempre o que vemos é o que realmente é eu sei, mas aquilo foi demais, demorou mais foi.

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eu sempre gostei dos espaços entre as palavras, em um texto breve ou longo, é sempre isso que observo primeiro, a distancia de cada uma. chega a ser bonito o jeito como elas se movimentam e dançam conforme a leitura, conforme os adjetivos vão sendo ligados aos nomes, conforme o som é pausado para essa distancia passar. eu penso nisso de forma melancólica, imagino uma orquestra sendo combinada a partir dessas lacunas, deixo a vista embaçar e noto o contorno de cada parágrafo, como se isso fizesse algum sentido, como se o autor tivesse deixado alguma mensagem subscrita para mim e mais ninguém na terra. eu penso em tudo isso, até o texto acabar, chegando no ponto final.

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algumas pessoas sobrevivem, não vivem. ultrapassam o limite de qualquer coisa palpável e depois de voltarem ficam frustradas com a frieza da realidade, do vazio.
aprendi a respeitar as pessoas que nunca conheceram esse limite, aprendi a compreende-las e até a inveja-las, mas as vezes sinto raiva delas ou de mim. quando você estiver andando pela rua, preocupado com o horário do ónibus e do curso, e tropeçar em alguém que ao menos pede desculpas por isso, suspeite. pense que talvez essa pessoa não esteja tão bem assim, e aquele sorriso foi o jeito certo de te enganar, pense que aquela musica que você estava cantarolando antes da colisão era a preferida dela até algum episódio irremediável acontecer. não os menospreze, porém não sinta pena. deixe-os passar. deixe-me passar. vai ficar tudo bem. até você cruzar aquela linha, chegar naquele limite, dai as coisas pra ti irão mudar, aposto.


thamara, thamara, thamara.

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