Não é covardia

Tenho observado minha vida como alguém que observa o mar, percebo cada onda se quebrando de maneira diferente, a brisa mudando, o som dos grãos de areia se chocando uns contra os outros, anoto mentalmente cada movimento da maré, decoro para mim o jeito como as coisas funcionam.
Não faz muito tempo, e eu costumava colocar a mão espalmada para fora da janela do carro, sentia a pressão do vendo contra meus dedos esticados, e achava tão gostoso a liberdade, mesmo que sentida apenas por minha mão, de estar livre, sem medo .. administrando uma coragem consentida de viver, algo que eu achava tão natural, e hoje não tenho mais. Não é que me tornei um ser covarde, é que algumas coisas e palavras na vida começaram a me amedrontar, eu disse tantos " eu te amo " e alguns eu ainda ouço e até sinto em mim; eu colecionei tantos sorrisos, tantos abraços, tanta coisa que eu pensava ser só minha e não era, decidi não mais me decepcionar, por isso criei para mim mesma umas verdades e contradições da sua boca, deixo você falar, acreditar .. mas em meu coração - surdo - enxergo que os cortes do final serão os mesmos .. e olha que esses aqui nem cicatrizaram ainda. Só eu sei o quanto preciso de colo, e o quanto a ausência de uns me maltrata, mas eu aprendi a suportar e conviver com a saudade, direcionei meus pensamentos para outro canto, mas eu sei, você sabe, e todo mundo .. que parte de mim continua ai, esperando eu ir buscar, mas eu sei que não vou, tenho medo. Meus próprios defeitos me venceram, e isso não fez de mim uma pessoa fracassada, pelo contrario. Não é que me tornei covarde, mas as vezes colocar a mão para fora da janela requer riscos, e eu não quero mais correr.

Thamara Morgan

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